era obscura

Era digital obscura pode deixar humanidade sem informações do passado

Sabe as fotos antigas da sua vó, já pensou no que você vai mostrar aos seus netos? A perda definitiva dos dados produzidos hoje é uma preocupação. Entenda

A criação de conteúdos na internet é imensa. A cada dois anos, esse ritmo de produção chega a dobrar, segundo estudo da corporação EMC e da consultoria IDC. Mas será que todas essas informações estarão disponíveis para a humanidade no futuro? Esse é o receio de alguns especialistas do mundo da tecnologia. Para eles, estamos vivendo uma era digital obscura, onde se produz muito, mas se armazena pouco. Nossa geração já sofre com o problema, e gerações futuras podem sofrer ainda mais.

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O vice-presidente do Google e um dos pais da internet, Vinton Cerf, está tentando abrir os olhos do mundo sobre o perigo de se perder o que está sendo criado por esta geração, que pode não deixar vestígios. Segundo ele, já não imprimimos fotos, pois todas estão guardadas no mundo digital, não escrevemos cartas, mas sim mandamos e-mail, não armazenamos discos, mas guardamos nossas canções na nuvem.

Cerf acredita que quando os hardwares e softwares atuais tornarem-se obsoletos, poderemos chegar à era que ele chama de “idade das trevas digital”, onde gerações futuras não teriam nenhum registro do Século XXI.

“É algo que me preocupa muito. Até certo ponto, já estamos vivendo essa era. Não podemos abrir documentos ou apresentações criadas em formatos antigos para a versão mais recente do nosso software, pois a compatibilidade com sistemas e aplicações não é garantida”, disse Cerf, durante uma conferência da Associação Norte-Americana para o Avanço da Ciência.

Disquete como indício de uma era obscura

Não precisamos viajar para o futuro para entender o problema. Nós estamos vivendo o início dessa era, segundo Cerf. A prova disso são os disquetes, que eram o principal sistema de armazenamento básico dos anos 80 e 90. Muitos arquivos eram guardados neles, como trabalhos escolares, documentos e fotos. E a maior parte dessa informação já se perdeu. E se ainda resta algum disquete, nos deparamos com outro problema: encontrar um drive que o leia e torcer para que os dados não tenham sido danificados com o passar do tempo.

O consultor tecnológico Terry Kuny já havia alertado para esse perigo ainda em 1997, ao escrever um artigo sobre a chegada da era digital obscura. Segundo ele, é certo que as próximas gerações não terão acesso às informações de hoje.

“Não acredito que haja riscos de que a informação de nosso tempo fique inacessível, acredito que isso é uma certeza. Já está acontecendo, a cada dia. Existe muito mais informação nascida digital do que antes e existem apenas poucas instituições públicas ou privadas que estejam ativamente implicadas em lidar com esse problema”, disse o consultor.

VHS como exemplo de deterioração de documento

Durante muitos anos, o VHS foi utilizado para assistirmos a vídeos, filmes e gravações em geral. E quem utilizou as fitas sabe que elas se deterioram com o tempo. A gravação magnética dominou as primeiras décadas da era digital. Até hoje, os discos rígidos guardam os dados utilizando a polaridade das partículas e, por conta do magnetismo, eles acabam se perdendo.

A NASA, por exemplo, perdeu boa parte de suas gravações em Marte, da Missão Viking nos anos 70. Ainda que a agência espacial tenha transferido os dados das fitas magnéticas originais a suportes óticos, até 20% do material não podem ser recuperados.

Assim como o disquete e a fita, o temor é que nossos formatos de arquivo atuais e nossas formas de gravação tornarem-se também obsoletas. É o caso das imagens em Jpeg e as músicas em MP3. O que serão delas quando novos formatos forem criados?

20% dos tuites já sumiram

O pesquisador Alan Mislove, da Universidade Northeastern (EUA), publicou um artigo, em 2014, onde comprovou que quase 20% dos tuites publicados no Twitter desapareceram. Segundo ele, “é difícil projetar o que acontecerá futuramente com os tuites perdidos”. Mas ele acrescenta que “os dados de sites, como o Twitter e o Facebook, oferecem aos pesquisadores uma capacidade sem precedentes para estudar a sociedade a uma escala e um detalhamento que eram simplesmente impossíveis antes”.

Internet Archive é a melhor tentativa de salvação

O grande desafio da atual geração, portanto, é arrumar maneiras de guardar tudo o que está sendo produzido, e que possam ser acessados pelos aparelhos e formatos do futuro. A Internet Archive é a maior tentativa que existe para conservar a memória da rede. A empresa rastreia periodicamente a rede, fazendo cópias das páginas que encontra e guardando-as. Assim, se alguma página desaparecer, sempre existirá a possibilidade de relembrar como era.

Outro bom exemplo vem da Espanha. Lá, a Biblioteca Nacional, com a ajuda do Archive, começou a escanear a rede do país. Mais de 140 terabytes já foram copiados de milhares de páginas. A BNE, porém, ainda aguarda a aprovação de um regulamento sobre o armazenamento legal e publicações eletrônicas.